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segunda-feira, 2 de março de 2009

Os nossos filmes 2008

Assim foi 2008 para o Ípsilon.
Escolhas de Jorge Mourinha, Luís Miguel Oliveira, Mário Jorge Torres e Vasco Câmara
1. O Segredo de um Cuscuz Abdellatif Kechiche
Este ano sentámo-nos à mesa de uma família francesa -francoárabes, proletários dos arredores de Marselha (mas também há russos), enfim, uma família com os condimentos de hoje. E a refeição foi memorável.Através da barriga, diz-se, chega-se mais depressa ao coração, e o adágio serve a "O Segredo do Cuscuz". A refeição foi espectáculo para todos: as fronteiras entre "cinema de autor" e "cinema popular" explodiram. Foram dinamitadas pela mão de um cineasta nascido em Túnis em 1960 e seis anos depois já a viver em Nice, França, para onde o pai emigrou.Abdellatif Kechiche é o instigador de uma utopia, a de quebrar a distância entre filme e espectador. Sim, há algo de utópico nisto de dizer que os operários -personagens deste filme -poderem interessar às elites. E a utopia aconteceu com a terceira longa-metragem do realizador (depois de "La Faute à Voltaire" e de "A Esquiva").Não vamos esquecer: longas sequências à mesa, espectáculo de cuscuz e de grandes planos dos rostos, onde a família abre feridas e cicatriza a sua unidade; uma incrível experiência "ao vivo" -a tal barreira que se quebra entre o espectador e o ecrã. Grande cinema popular, memorável, de novo.V. C.
2. A Turma Laurent Cantet
Poder-se-ia dizer que era o filme certo na altura certa, face às convulsões da educação em Portugal, mas seria reduzir "A Turma" a uma topicalidade que transcende as suas intenções de mostrar a escola como reflexo da sociedade sem cair no cliché do "filme educacional". Missão cumprida em ambos os casos, através de uma ficção filmada como um documentário. J. M.
3. Este País Não é para Velhos Joel e Ethan Coen
Adaptando o romance de Cormac McCarthy, os irmãos Coen constroem um terrífico pesadelo americano, com violência e rigor inusitados: depois de "Fargo" é a sua mais obra mais pessoal e mais forte, apostando num sangrento jogo de massacre, espécie de divertimento letal em torno da morte sem razão, um "thriller" brutal cruzado com um "western" rarefeito. O predador à solta de Javier Bardem persegue-nos como onírica encarnação do Mal. M. J. T.
4. Austrália Baz Luhrmann
Como já fizera em "Romeu e Julieta" e "Moulin Rouge", Baz Luhrmann pulveriza as regras do cinema clássico e transforma os géneros em resquícios signifi cativos. O grande fôlego épico (pode falar-se de uma paródica a "E Tudo o Vento Levou" ou a "Gigante") dissolve-se numa estratégia pós-moderna de esvaziar os conteúdos melodramáticos e de reduzir as personagens a meros fantoches. E, no entanto, persiste uma comovente relação com a capacidade de o cinema transmitir emoções e de "arrepiar" o espectador incauto. M.J.T.
5. Gomorra Matteo Garrone
É tudo menos o filme de mafiosos romântico e épico: "Gomorra" é uma arrepiantemente desencantada polaroid em mosaico sobre os proletários do crime.Gente tão aprisionada no seu quotidiano banal como um qualquer bancário ou balconista, sonhando com uma saída que talvez não exista, assombrosamente filmada, sem ilusões mas com lealdade, por Matteo Garrone. J.M.
6. Quatro Noites com Anna Jerzy Skolimowski
O polaco Jerzy Skolimowski, depois de 17 anos sem filmar, voltou a esgrimir a sua obsessiva inocência, fazendo corpo com a personagem de um funcionário de crematório obcecado pela enfermeira que vive em frente. É o filme de um cineasta intacto - na disponibilidade para a obsessão. É um filme, como outros de Skolimowski, em que o desejo tem amputação agendada: o cinema, "idade de ouro", escapa-se-nos entre os dedos. V.C.
7. Nós controlamos a noiteJames Gray
A parábola do filho pródigo encenada entre as grandes famílias da polícia e da máfia novaiorquinas, em finais dos anos 80. Sem nunca "citar", Gray trabalha na pista - ou na "tradição" - deixada por outras grandes declinações do tema "família americana", do classicismo fordiano ao neo-classicismo coppoliano. Cheio de personalidade, cheio de estilo, mas silencioso e com horror a excessos: arte essencialmente discreta. L.M.O.
8. Aquele Querido Mês de AgostoMiguel Gomes
Até na Austrália (onde o influente crítico Adrian Martin acaba de o escolher como "melhor do ano") o seu poder funcionou. Há portanto algo mais, neste filme sobre Portugal e os portugueses, do que o reconhecimento de Portugal e dos portugueses. Há um cinema que se reinventa, se redescobre (e se devora) a cada plano, sonhando com grandes fórmulas e géneros clássicos (o documentário e o melodrama) a que chega tomando o caminho mais longo. Gosto do risco, espírito de aventura. L.M.O.
9. Darjeeling LimitedWes Anderson
O próximo filme de Wes Anderson será um desenho animado. É natural: talvez "Darjeeling Limited" seja o máximo ponto a que se pode levar a "cartoonização" e o burlesco sem que tudo se torne... "cartoon". Tudo almofadas para os sentimentos, o instrumento de um pudor: como sempre em Wes Anderson, é um filme lancinante. Viagem por uma Índia de cinema (a de Satyajit mas também a de Renoir), três irmãos à procura da mãe, laços de um sangue que ainda não parou de correr. L.M.O.
10. Antes que o Diabo Saiba que MorresteSidney Lumet
Lembrou-nos que o veterano Lumet, quando em "dia sim", pode ser um extraordinário cineasta. O filme-puzzle (assente em "flash-backs" ou "flash-forwards") tomado não como "desconstrução da narrativa" mas como decomposição das personagens e da sua unidade. Uma amargura sem fim, que não dá tréguas. Um grupo de actores (Seymour Hoffman, Finney, Ethan Hawke, Marisa Tomei) que foi o melhor "ensemble" do ano.L.M.O.

domingo, 1 de março de 2009

EUA

Hollywood acarinhou Obama e o que vai ter em troca?

O espectáculo americano poderá ficar desapontado quanto a uma relação de trabalho com o Presidente.
As estrelas são atraídas por outras estrelas, e o magnetismo Obama foi especialmente forte: Hollywood acorreu em força a participar na campanha de Barack Obama, com vídeos na Net e mensagens de apoio, e as estrelas estiveram em peso em Washington, na posse do novo Presidente.
As filhas do casal Obama conheceram Beyoncé no baile da tomada de posse. Mas tal como Michelle Obama já prometeu que não quer que as filhas convivam com celebridades, as estrelas da música e do cinema deverão estar também mais ausentes da Casa Branca, pelo menos mais do que o que foi hábito com o último Presidente democrata, Bill Clinton. O site norte-americano Politico comentava que Obama "parece estar bem consciente dos perigos de estar demasiado perto das personalidades do showbiz", tendo passado "relativamente pouco tempo a cortejar o establishment político de Hollywood".
Pode argumentar-se que não precisaria, porque uma parte das estrelas assumiu a iniciativa de o apoiar. Mas também se pode dizer que esse apoio poderia servir simplesmente como munição para os adversários: afinal, o adversário de Obama, John McCain, atacou-o precisamente por atrair multidões "como uma estrela pop", comparando-o a Paris Hilton (como descrever Paris Hilton? Uma celebridade?) e a Britney Spears. O que levou a um episódio hilariante com Paris Hilton a aparecer num vídeo apresentando-se como candidata à presidência, folheando uma revista de viagens para decidir onde conseguir o melhor bronzeado antes de explicar o seu plano para acabar com a dependência energética dos EUA.Mudança de ritmo
A vida na Casa Branca deverá mudar - o ritmo da equipa Obama é mais workaholic, o de Bush era menos frenético. Na Casa Branca de Bush todos se deitavam às dez da noite e a vida social era mínima - Bush deu 12 jantares oficiais em oito anos, contra os 30 de Clinton e 50 de Reagan, lembra um artigo no jornal Estado de São Paulo. Obama deverá ficar entre a frugalidade de Bush e a grande actividade social de Bill Clinton, onde não era raro aparecerem convidados como Barbra Streisand, Steven Spielberg, Jane Fonda ou Tom Hanks.
Obama tem começado a trabalhar pouco antes das nove da manhã, depois de fazer exercício físico por volta das 6h45. Bush começava duas horas mais cedo, mas preferia uma pausa para actividade física a meio do dia, diz o New York Times. O novo Presidente irá tomar o pequeno-almoço com a família antes de começar o dia de trabalho, e jantará com a mulher e as filhas. Mas o diário norte-americano adiantava que com apenas uma semana no cargo já se percebia que não será raro vê-lo às dez da noite ainda na Sala Oval a ler briefings para o dia seguinte.
Quanto à vida cultural, os cantores country, que eram os artistas mais frequentes na casa da Pennsylvania Avenue no tempo de Bush Jr., deverão dar lugar a outro tipo de músicos - o gosto de Obama é variado, no iPod tem desde Bob Dylan a Jay-Z, de Sheryl Crow a Stevie Wonder - mas a Casa Branca de Obama não deverá registar uma reviravolta como a que aconteceu com os Kennedy: os anos de JFK ficaram marcados por uma vida cultural refinada como nunca até então (há até uma compilação em CD Music of the Kennedy White House, com faixas de artistas desde o virtuoso violoncelista Pablo Casals até cantoras como Mahalia Jackson ou Ella Fitzgerald, e faixas de compositores como Leonard Bernstein ou Aaron Copland, duas presenças frequentes na Casa Branca dos Kennedy.)Um ministro da Cultura?
Hollywood apaixonou-se por Obama. No espírito de "todos podemos fazer um pouco", muitas estrelas gravaram e puseram on-line algumas promessas - no myspace.com/presidentialpledge pode ver-se Courtney Cox a comprometer-se a ajudar a acabar com a fome na América, Eva Mendes a prometer dar mais tempo para ajudar crianças com doenças graves, entre muitos outros (e numa nota de humor Anthony Kiedis, dos Red Hot Chili Peppers, promete lealdade ao funk. Bem, um pouco à frente e mais a sério, promete ajudar mais os idosos americanos).
De certo modo Hollywood encontrará no novo Presidente alguém atento a algumas questões caras às estrelas, da ecologia ao Darfur, passado pelo sistema de saúde. E Barack Obama já fez algumas afirmações e promessas que agradaram ao mundo das artes, como a criação do Art Corps, semelhante ao Peace Corps, onde se alistam pessoas que se oferecem para fazer voluntariado em qualquer parte do mundo - no Art Corps os voluntários poderiam ajudar nas escolas e organizações de arte pelo país.
Mas, alerta o Politico, algumas ideias não são tão caras à nova Administração. É o caso da criação de um secretário das Artes, equivalente a ministro da Cultura, e do aumento de verbas para esse pelouro, ou da criação de um grupo de celebridades que agiriam um pouco como os embaixadores de boa vontade das Nações Unidas.
No primeiro caso, diz o jornal dedicado à política norte-americana, o aumento de verbas para as artes foi uma arma de ataque que os conservadores estiveram sempre prontos a usar contra os democratas. E em tempo de crise poderá ser difícil justificar o aumento de uma fatia do orçamento que tem vindo a diminuir nos últimos anos, assim como a criação de um posto que espelhasse esta importância das artes.Quanto à ideia dos embaixadores, explica o Politico, o medo será que as ideias demasiado liberais dos embaixadores-estrelas se sobreponha aos compromissos moderados de Obama.
Mas há quem espere que a maior contribuição de Obama venha pelo exemplo. O especialista em Artes do Christian Science Monitor Roland Kushner, que é professor no Muhlenberg College (Pensilvânia), sugere ao Presidente que envolva a família, especialmente as filhas, em actividades culturais: "Leve Malia e Sasha ao museu, ou mostre-as a ter aulas de música na Casa Branca."

08.02.2009 - Maria João Guimarães, Ípsilon, Público